[Gente, quem não viu o filme sai 

fora, tá? Porque eu vou dar 

spoiler do início ao fim.]

Assistir ao filme A Baleia foi, para mim, um 

exercício de reencontro com a humanidade 

em sua forma mais crua; confesso que 

demorei muito tempo para entender quem 

era o ator, e só quando Brendan Fraser* 

sorriu — com aquele brilho que é só dele — 

foi que eu reconheci o homem por trás de 

tanta corpulência e maquiagem. 

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O filme nos coloca, consciente ou 

inconscientemente, dentro de um navio** 

através de sons de chuva e trovão, em um 

cenário azulado e marrom que mimetiza uma 

embarcação em plena tempestade. 

.

Essa ambientação é reforçada pela tela 

quadrada, 

que gera uma claustrofobia quase 

insuportável, 

nos fazendo sentir o aperto de 

Charlie em seu 

próprio apartamento . 

.

Ele é um professor que "não sai muito", 

e essa fala 

carrega o peso de uma limitação 

motora severa: 

Charlie quase não consegue se mexer, 

ofega para 

usar o andador e vive sob uma 

pressão arterial de 

23/13, um estado físico que torna a simples 

locomoção um ato punitivo.

.

Esse isolamento é também emocional, 

pois ele esconde sua imagem dos alunos, 

desligando a câmera por uma vergonha 

que nunca 

é dita em palavras, mas que transborda 

em cada 

um dos seus mais de 70*** 

pedidos de desculpa ao longo da trama. 

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No meu olhar sobre o comportamento 

alimentar, 

percebo que Charlie não sofre apenas 

de um transtorno de compulsão; ele 

vive um 

"comer transtornado" emocional e 

por tédio, 

onde a comida entra rápido e sem 

mastigação, 

muitas vezes em uma postura 

deitada que – 

embora eu não seja psicanalista, 

juro a vocês, 

me remete a um comportamento 

regredido. 

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O verdadeiro episódio de compulsão 

(pra ser coerente com ao menos parte 

dos critérios diagnósticos do DSM) só surge 

como uma tentativa desesperada de abafar o 

nojo e o asco refletidos no olhar do 

entregador de pizza. 

Ao redor dele, orbitam personagens 

que formam um ecossistema 

complexo de perdas. 

Liz, a enfermeira e amiga, o mima 

como se fosse 

um bebê, trazendo baldes de comida 

que o 

confortam no curto prazo, 

mas que o matam 

lentamente — um amor que se 

perde por ela não 

suportar reviver o luto do irmão, Alan. 

Já sua filha, 

Ellie, apresenta uma fúria que muitos 

leriam como 

maldade, mas que eu vejo como um 

desespero de 

quem foi abandonada e testa o amor 

do pai através 

da agressividade . 

.

Charlie, com uma compaixão nota 10 

pelos outros e

nota -3 por si mesmo, escolhe focar 

apenas na luz 

da filha, encontrando nela o brilho 

de honestidade 

que justifica sua vida . 

Mary, a ex-esposa, foge da própria 

mágoa através do álcool, enquanto o jovem 

Thomas tenta salvar Charlie através 

de um fanatismo religioso que foi, 

ironicamente, o que destruiu a vida de Alan . 

.

Entre essas relações, a cena do pássaro 

na janela é um respiro maravilhoso, onde 

vemos Charlie sorrir pela primeira vez, 

tateando um momento de presença 

pura que a filha, em seu ciúme e dor, tenta 

sabotar. 

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No fim, a travessia de Charlie é uma 

busca pela síntese dialética: aceitar a 

dor de um luto travado e, ao mesmo tempo, 

levantar-se para a verdade. 

.

Ele morre ouvindo a voz da filha, substituindo 

o mar de culpa pelo brilho de saber que, no 

meio de tanto caos, houve honestidade. É o 

Caminho do Meio em sua forma mais trágica e

bela, nos lembrando que cada minutos de nossos 

dias deve ser investido naquilo que realmente 

valorizamos, antes que a maré suba de vez . 

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Ficha Técnica: The Whale(2022) - 117 minutos

Direção: Darren Aronofsky (Réquiem por 

um sonho, Cisne negro, Mãe!)

Roteiro: Samuel D. Hunter 

(“The Whale - peça de teatro)

Figurinos: Danny Glicker 

(Milk, Mãe!)

Design de produção: Mark Frieberg 

(Across the universe)

Direção de fotografia: Matthew Libatique 

(Réquiem por um sonho, Cisne negro)

Trilha sonora: Rob Simonsen 

(Stranger Things)

Sim, Brendan Fraser, o mesmo de , George, 

o rei da floresta!  

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*Ele inclusive ganhou o Oscar de melhor ator 

em 2023, por esse mesmíssimo filme. 

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**Aliás, pra quem não sabe, ambientação 

do filme estabelece uma intertextualidade 

direta 

com Moby Dick, de Herman Melville. 

Vale a leitura, 

são somente 300 páginas 😊

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***Como terapeuta DBT, sei o que excesso 

de pedido 

de desculpas quer dizer... self destroçado, 

possivelmente um estresse pós traumático, 

absoluta falta de senso de valor. 

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[Texto escrito a partir de aula 

ministrada na plataforma DíadeLab]